Queda “Sem Queda” na Obra: Microtraumas Podem Virar Lesão Séria e Gerar Responsabilidade?
Nem todo acidente em obra é uma queda dramática. Microtraumas repetidos podem causar lesões graves e incapacidade. Entenda como provar nexo, concausa e falhas de segurança.
O Acidente que Ninguém Registra: Quando o Corpo Vai “Guardando” Impactos.
Em canteiro de obras, existe um tipo de evento que raramente vira CAT, raramente vira relatório e quase sempre vira sofrimento prolongado: o microtrauma repetido.
Não é a queda espetacular do andaime.
É o escorregão na escada que “não deu em nada”, o tranco no joelho ao descer apressado, a torção de coluna ao levantar peso fora de eixo, a batida no ombro ao manobrar material em espaço apertado.
A dor começa discreta. O trabalhador segue, compensa, “se vira”. A rotina exige.
O problema é que o corpo não esquece: ele vai acumulando.
E quando a lesão se instala — uma hérnia com irradiação, uma ruptura parcial de tendão, um menisco rasgado, uma instabilidade articular — a empresa frequentemente tenta resumir tudo a:
“não houve acidente”,
“não tem registro”,
“isso é degenerativo”.
Aqui está a virada importante: o Direito não exige, necessariamente, um evento único e cinematográfico.
Existe um raciocínio técnico que costuma preencher esse aparente “vazio”: a concausa.
Ou seja, o trabalho não precisa ser a única causa da lesão — basta que tenha sido causa relevante de desencadeamento ou agravamento.
Microtrauma x Doença “da Idade”: Como a Prova Separa Uma Coisa da Outra.
O que diferencia um quadro “da vida” de um quadro relacionado ao trabalho não é discurso, é coerência:
- Coerência clínica: sintomas e diagnóstico compatíveis com esforço repetido ou impacto;
- Coerência temporal: piora ligada à jornada, melhora parcial na folga, evolução progressiva;
- Coerência laboral: tarefas e ambiente que explicam a lesão;
- Coerência documental: atendimentos, exames, restrições, afastamentos.
O microtrauma tem uma assinatura típica:
começa como incômodo → vira limitação → “de repente” vira incapacidade.
Esse “de repente”, na verdade, é só o ponto em que o corpo não consegue mais compensar.
Lesões Mais Comuns Nesse Cenário
Em caso paradigmático, o TJSP (Apelação Cível nº 1004217-57.2022.8.26.0562) determinou que o plano de saúde fornecesse medicamento oncológico com custo superior a R$ 200 mil anuais, mesmo fora do rol da ANS.
Coluna: lombalgia recorrente, hérnias, pinçamentos, dor irradiada;
Joelho: lesão meniscal, condropatia agravada, instabilidade;
Ombro: lesões do manguito rotador, tendinites crônicas, bursite;
Punhos e mãos: tendinites por esforço, perda de força, dor persistente.
Onde Costuma Estar a Falha Empresarial (E Por Que Isso Importa)
Na construção civil, a discussão raramente é “se aconteceu”.
Quase sempre é por que aconteceu e o que foi feito para evitar.
Microtrauma repetido costuma apontar para falhas estruturais, como:
- piso irregular e áreas de circulação improvisadas;
- escadas e acessos inseguros;
- ritmo de obra que estimula pressa;
- ausência de inspeção real e correção de riscos;
- treinamento apenas formal;
- EPI entregue sem fiscalização e sem compatibilidade com a tarefa.
Um caso noticiado pelo TRT-2 ilustra bem essa lógica:
um montador de andaimes ficou pendurado no 28º andar após desabamento da estrutura, e a Justiça reconheceu a gravidade do cenário, com condenação solidária e indenização.
Mesmo sendo um evento agudo, a mensagem é clara:
risco previsível + controle falho = responsabilidade.
NRs Mais Ligadas ao Tema (Dever de Prevenção)
Sem transformar o artigo em lista técnica, vale destacar as normas que dialogam diretamente com a organização do risco:
NR-18 – Construção civil;
NR-35 – Trabalho em altura;
NR-1 – Gerenciamento de riscos (PGR);
NR-7 – PCMSO;
NR-6 – EPI;
NR-17 – Ergonomia (quando há esforço e manipulação de carga).
Como Montar a Prova Quando Não Houve CAT (O Que Realmente Funciona).
Aqui está o ponto que separa relato de caso forte:
transformar rotina em evidência.
1️⃣ Linha do tempo (simples e objetiva)
- Quando começou a dor?
- Quando passou a limitar tarefas?
- Que atendimentos ocorreram (UPA, ortopedista, fisioterapia)?
- Quando houve exames (RX, RM, laudos)?
- Quando a capacidade caiu (restrição, afastamento, mudança de função)?
2️⃣ Prova do ambiente e da rotina
- Fotos de acessos, escadas, pisos, áreas de carga e descarga;
- Descrição de tarefas com frequência e carga (quantas vezes/dia, quanto peso, quanto tempo);
- Testemunhas para confirmar rotina, não para “falar bonito”.
3️⃣ Documentos ocupacionais
PPP e LTCAT (quando houver);
PGR e PCMSO;
fichas de EPI e registros de treinamento.
Erros Que Enfraquecem Esse Tipo de Caso
Relatar “por alto”, sem datas;
Falar só da dor, sem descrever tarefa e ambiente;
Não guardar prontuários e exames;
Contradições sobre função e rotina;
Depender exclusivamente de uma CAT inexistente, como se fosse a única prova possível.
Sofreu lesão no trabalho sem uma “queda clássica”?
Se a sua lesão começou “pequena” e virou limitação, isso não é detalhe — é um padrão clássico de microtrauma ocupacional.
O ponto não é “gritar acidente”.
É organizar prova, com cronologia clara, rotina coerente e documentação médica consistente.
Microtraumas repetidos também geram responsabilidade, desde que corretamente demonstrados. A diferença entre um caso ignorado e um direito reconhecido está na estratégia, na prova e na condução técnica.
Na Itaborahy Lott Advocacia, atuamos com foco em Direito do Trabalho.

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